CRISES EXISTENCIAIS: AURELIANA
O primeiro dia do ano começara da pior forma possível. Do alto da montanha os imortais pregavam novos mandamentos para os escritos dos que sobreviviam das letras.
Era o quinto dia da semana; entre o quarto dia e o sexto; dois dias antes de sábado.
A agitação era inevitável, todos andavam pelas ruas confusos. Nas cidades com maior número de habitantes, o reforço policial foi evocado para conter a barbárie. Muitos acidentes por todas as ruas, não era possível o uso de nenhuma sinalização, as pessoas não compreendiam mais os significados.
Neste mesmo tempo o caos se instalou sobre o restante do reino animal. Pingüins migravam para as regiões equatoriais, eram recepcionados por outros animais aturdidos. Várias espécies de sagüis cometeram suicídio. Jibóias mergulhavam em baldes de tinta, algumas exageravam, vestiam lenços e intitulavam-se najas. Pássaros caíram de seus vôos.
Vários lugares do mapa sumiram. Niterói foi rapidamente evacuada, os que saíram não a encontraram mais, dos que ficaram não se teve mais notícia. As assembléias foram todas extintas. Fecharam-se as clarabóias. Milhares de baiúcas desmoronaram.
Diversos nichos ecológicos da sociedade moderna entraram em colapso. Cientistas, poetas, desbravadores, vereadores, hippies artesãos: todos ficaram inertes, não conseguiram mais criar, estavam sem idéias. As madames jogaram suas jóias fora, passaram a usar bijuterias. Os caminhoneiros desceram das boléias. Os que não sabiam nadar? Afogaram-se! Não existiam mais bóias. Grupos anti-semitas e anti-religiosos deixaram também de existir;
Todas as terceiras pessoas do plural pararam de crer, ler, ver; em alguns tempos, alguns conseguiam dar algo, mas quando adquiria um tom mais subjuntivo, o caos tornava-se certo de novo.
Vários aparelhos de microondas foram quebrados.
Os tempos estão difíceis. Mas está previsto para o final de semana a aprovação de uma emenda constitucional que irá extinguir os dias úteis da semana, sobrando-nos apenas dois: sábados e domingos.
Deforma ortográfica.